quarta-feira, 27 de junho de 2012

Um terço das águas do país tem qualidade inadequada



Esse é o resultado de um levantamento da ONG SOS Mata Atlântica em mananciais de 13 unidades da federação

A pesquisa da SOS Mata Atlântica constatou que nenhuma das amostras coletadas em 43 fontes de águas naturais de 12 estados e do Distrito Federal tinha qualidade ótima ou boa. Em 70% delas, a qualidade do recurso foi avaliada como regular, em 25% como ruim e em 5% como péssima.
Os técnicos utilizaram os parâmetros definidos pelo Ministério do Meio Ambiente para fazer a classificação das amostras. O principal agente de poluição, segundo o levantamento, é o esgoto doméstico. A carga de contaminação é tão elevada que exige que as águas passem por tratamento antes de serem destinadas ao uso doméstico ou industrial.
Os indicadores usados no levantamento, realizado durante o ano de 2010, estão associados à falta de saneamento básico, tais como presença de bactérias, larvas e vermes, espuma, vários tipos de resíduos sólidos e orgânicos e baixa quantidade de oxigênio na água.
Na amostragem selecionada pela ONG, as fontes em melhores condições estão localizadas nos estados de Pernambuco e Espírito Santo. São o rio Doce, em Linhares (ES), e a lagoa Maracajá, em Lagoa dos Gatos (PE).
No extremo oposto, os mananciais com pior avaliação são o rio Verruga, em Vitória da Conquista (BA) e o lago da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro (RJ).
O resultado mostra, segundo Malu Ribeiro, coordenadora do programa Rede das águas da SOS Mata Atlântica, que é preciso adotar urgentemente medidas em defesa da boa qualidade da água em todo país.
"Com a ação, queremos despertar nas pessoas a necessidade de mudança de comportamento", declarou Malu.

Fonte: CYAN

População de Vitória da Conquista (BA) bebe a pior água do Brasil 

O abastecimento de água para a população urbana da cidade, a cargo da EMBASA (Empresa Baiana de Água e Saneamento), é realizado por um sistema de transposição entre as bacias hidrográficas do Riacho Água Fria e do Rio Verruga. “Existem altos índices de poluição por termotolerantes e situações de riscos de contaminação da população, principalmente por coliformes fecais, devido às fontes de esgoto doméstico e dejetos de animais. Os produtos químicos oriundos das indústrias, da lavagem de roupas e utensílios domésticos é outra fonte de poluição e contaminação bastante peculiar nos trechos analisados”, afirma Altemar Amaral Rocha (UESB/UNEB).

Fonte: CiaCristal


Água Poluída


Rio Tietê Poluído

A população mundial está poluindo os rios e oceanos com o despejo de milhões de toneladas de resíduos sólidos por dia, envenenando a vida marinha e espalhando doenças que matam milhões de crianças todo ano, disse a ONU."A quantidade de água suja significa que mais pessoas morrem hoje por causa da água poluída e contaminada do que por todas as formas de violência, inclusive as guerras", disse o Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas – UNEP.
Em um relatório intitulado "Água Doente", lançado para o Dia Mundial da Água, o UNEP afirmou que dois milhões de toneladas de resíduos, que contaminam cerca de dois bilhões de toneladas de água diariamente, causaram gigantescas "zonas mortas", sufocando recifes de corais e peixes. O resíduo é composto principalmente de esgoto, poluição industrial, pesticidas agrícolas e resíduos animais.
Segundo o relatório, a falta de água limpa mata 1,8 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade anualmente. Grande parte do despejo de resíduos acontece nos países em desenvolvimento, que lançam 90% da água de esgoto sem tratamento. A diarreia, principalmente causada pela água suja, mata cerca de 2,2 milhões de pessoas ao ano e "mais de metade dos leitos de hospital no mundo é ocupada por pessoas com doenças ligadas à água contaminada."
O relatório recomenda sistemas de reciclagem de água e projetos multimilionários para o tratamento de esgoto. Também sugere a proteção de áreas de terras úmidas, que agem como processadores naturais do esgoto, e o uso de dejetos animais como fertilizantes. "Se o mundo pretende sobreviver em um planeta de seis bilhões de pessoas, caminhando para mais de nove bilhões até 2050, precisamos nos tornar mais inteligentes sobre a administração de água de esgoto", disse o diretor da Unep, Achim Steiner, "O esgoto está literalmente matando pessoas."
Em São Paulo, segundo o biólogo John Emilio Tatton, empresas despejam, clandestinamente, resíduo tóxico nos rios e mananciais da grande São Paulo dificultando ainda mais o abastecimento de água na metrópole que precisa buscar água em outras bacias como: Campinas e Extrema no estado de Minas Gerais para abastecer a bacia Tietê, responsável pelo abastecimento da zona norte da capital.
“As nuvens de chuva só despejam em São Paulo devido aos 7% de mata atlântica que ainda restam na região, no entanto por não haver espaço para drenagem para a água da chuva, a água cai e vai para o rio Tietê saindo da cidade e indo para outras regiões. Por isso não pode poluir nossas represas e preciso preservar a água potável senão em menos de 15 anos São Paulo terá um grave racionamento de água” afirma John Emilio.
Para o biólogo é preciso também educar a população para o consumo consciente da água, que na grande metrópole é entorno de 180 litros dia por habitante e, segundo a Organização Mundial das Nações, um indivíduo precisa de 110 litros dia para suprir sua necessidade de higienização e consumo e o que ultrapassa isso é desperdício. Portanto São Paulo tem um alto desperdício e vem causando indignação nas cidades que precisam ceder água para o abastecimento da cidade.
Um projeto que inclui um programa de educação ambiental nas escolas públicas da grande São Paulo foi desenvolvido pela gestão ambiental da Sabesp, Empresa de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, para levar a população a necessidade de se ter um consumo racional da água e preservação da mesma.
“Só a educação ambiental irá conscientizar as empresas em não poluir os rios e mananciais da região porque a lei não está sendo suficiente para evitar esta prática” acrescenta John Emilio.

Texto retirado do blog Ação Eco.
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Efeitos da poluição aérea e edáfica no sistema radicular de Tibouchina pulchra Cogn. (Melastomataceae) em área de Mata Atlântica: associações micorrízicas e morfologia

O município de Cubatão se encontra no litoral da cidade de São Paulo onde, em sua área e adjacências, se localizam indústrias petroquímicas, de fertilizantes, de cimento e outras igualmente poluidoras que se instalaram no local ao redor da década de 1950 aproveitando-se das facilidades do maior porto marítimo do país, o Porto de Santos, e dentro do lema “desenvolvimento a qualquer custo”.
A localização desse pólo industrial é tal que os poluentes emanados pelas chaminés (material particulado, fluoretos, amônia, óxidos de nitrogênio, hidrocarbonetos, dióxido de enxofre, entre outros) são carreados pelos ventos que sopram em direção a continente e acabam por encontrar a barreira física representada pela Serra do Mar. Essa barreira promove a condensação da água evaporada do mar que, por sua vez, se precipita na região como chuva ácida, ainda carregada de elementos particulados e outros que estavam em suspensão na atmosfera (Ab’Saber 1987).
A partir de 1984 passou-se a perceber visíveis danos à vegetação fanerogâmica, com morte de muitas árvores e conseqüentes deslizamentos de terra, acarretados pelo solo desnudo e as chuvas abundantes que ocorrem na região. A partir de 1988, finalmente, as autoridades constituídas passaram a voltar a atenção para a área, propondo a realização de estudos que visassem o entendimento dos fenômenos que atingiam a região, bem como a proposta de medidas para a recuperação da antiga exuberante vegetação de Mata Atlântica (SMA 1990).
Dentre os vários estudos realizados, constatou-se que, dentre as plantas aparentemente tolerantes aos poluentes da região, encontravam-se espécies de Piperaceae, Urticaceae e Melastomataceae (Leitão Filho 1993). Dentre as espécies arbóreas a dominância relativa nas áreas poluídas parece ser das heliófilas, destacando-se as pertencentes às famílias Ericaceae, Moraceae e Melastomataceae, esta com maior valor de IVI (índice de valor de importância) e tendo como espécie dominante  Tibouchina pulchra Cogn. (Pompéia 2000).
Com o aumento dos problemas ambientais, foram desenvolvidos métodos voltados para o seu monitoramento, utilizando-se, dentre outras possibilidades, plantas ou animais como bioindicadores (Ellenberg  et al. 1991). Esses passam a apresentar reações específicas quando expostos a diferentes tipos de poluentes, fornecendo informações difíceis de serem obtidas e/ou quantificadas de outra forma (Flores 1987). Os biomonitoramentos, passivo e ativo, têm sido amplamente utilizados no Brasil nas últimas décadas para estudos diversos da qualidade do ar e efeito dos poluentes sobre as espécies vegetais (Flores 1987, Domingos et al. 1998, Klumpp et al. 2000a, b, Mazzoni-Viveiros 2000). Estudos referentes às condições edáficas em áreas sujeitas à poluição atmosférica, especialmente na Serra do Mar em regiões próximas ao complexo industrial de Cubatão, têm sido também realizados (Mayer et al. 2000a, b).
O efeito dos poluentes aéreos, oriundos do complexo industrial de Cubatão, Estado de São Paulo, foi analisado em plantas de Tibouchina pulchra de três áreas com diferentes níveis de poluição (o Vale do Rio Pilões tem sido relativamente protegido, em virtude da barreira física representada pela Serra do Mar e a direção predominante dos ventos ser contrária à sua área. A Reserva Biológica do Alto da Serra de Paranapiacaba recebe os ventos que varrem a área industrial e, em conseqüência, é atingida pelos agentes poluentes em suspensão. O Vale do Rio Moji é severamente poluído, em especial pelos materiais particulados e gases oriundos de indústrias diversas das proximidades (Klumpp et al. 2000a). Utilizaram-se sistemas radiculares de espécimes dos biomonitoramentos passivo e ativo, além daqueles das câmaras de topo aberto (ar filtrado e ar não filtrado). Dados quantitativos do sistema radicular, a diversidade de fungos micorrízicos arbusculares (FMAs), a porcentagem de colonização das raízes e a quantidade de esporos presentes no solo da rizosfera foram avaliados. Os resultados demonstraram haver nos indivíduos sujeitos aos maiores índices de poluição: - aumento da colonização micorrízica arbuscular; - maiores diversidade e abundância de espécies de FMAs; - tendência de redução no desenvolvimento do sistema radicular, principalmente em relação ao comprimento e às raízes lenhosas; - tendência de aumento na quantidade de raízes de pequeno calibre. Os resultados confirmaram a tolerância da espécie ao estresse causado pelos poluentes,  demonstrando que essa tolerância pode ser reduzida quando a ação dos mesmos ocorre pelas vias aérea e edáfica. O uso, portanto, da espécie em reflorestamento de áreas de mata atlântica degradadas deve incluir medidas de recuperação do solo para que sejam bem sucedidas.

Revista Brasil. Bot., V.27, n.2, p.337-348, abr.-jun. 2004

O artigo na integra pode ser obtido clicando aqui.

sábado, 12 de maio de 2012

Registro documentado de cópula de muriquis (Brachyteles arachnoides) na Serra da Mantiqueira, São Paulo, Brasil.


Como já se sabe os muriquis ou monos-cavoeiros (gênero Brachyteles) são os maiores primatas das Américas, vivem no bioma Mata Atlântica do Brasil, e estão entre os macacos mais ameaçados do mundo, tendo poucas populações conhecidas em seu restrito território de distribuição, bem como se sabe que existem duas espécies: os muriquis do norte (B.hypoxanthus) e os muriquis do sul (B.arachnoides). Ambos são muito parecidos, tendo o do sul com um negro mais compacto na face, como já tivemos oportunidade de dizer (Santos 2011a). Nesta oportunidade relatamos a cópula do muriqui do sul (B.arachnoides) na Serra da Mantiqueira, próximo à divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais, que presenciamos e registramos em vídeo, disponível na net (Programa Ambiental: A Última Arca de Noé, 2011).
Em decorrência de nossos estudos e levantamento da avifauna de São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos, estado de São Paulo, Serra da Mantiqueira (Santos, 2011b), desde 2002 temos visitado a região florestada do citado distrito (fotos 1 e 2), e, praticamente, todas as vezes temos encontrado bandos de muriquis e feito muitos registros em filmes e fotos, inclusive gravações de sua rica vocalização. 
 Na manhã do dia 10 de março de 2006, estávamos (o autor e Manoel França) na mata próximo à trilha São Francisco Xavier-Monte Verde, distrito de Minas Gerais (22 53’50.34”S/45 59’36.96”O), na área da fazenda Monte Verde, observando um grupo de muriquis. Os animais estavam forrageando tranquilamente por mais de uma hora em altas árvores, quando por volta das 11:30 cessaram suas atividades, para dar a já costumeira “soneca” (autor cit.), (foto 3).
Também estávamos relaxando, quando o autor foi até um riacho cerca de 15 metros e deparou com um casal de muriquis copulando em um galho horizontal de uma arvore alta. Imediatamente voltou, pegou a filmadora (Sony, PD170,digital), o tripé e iniciou a filmagem da cena raríssima, que durou cerca de três minutos, vídeo disponível na net (PROGRAMA AMBIENTAL: A ÚLTIMA ARCA DE NOÉ. 2011).
A fêmea estava deitada sobre um galho de uma enorme árvore, a cerca de oito metros do solo, e o macho copulando-a deitado sobre suas costas. Ele segurava com a mão esquerda um galho de um cipó que esta acima deles para ficar mais firme e poder executar melhor a sua manobra reprodutiva, enquanto a mão direita segurava o corpo da fêmea ou no tronco onde estavam deitados  (foto 4 a 7). Os movimentos eram lentos e cuidadosos.
Depois de cerca de uns três minutos acelerou seus movimentos, quando foi possível perceber que ejaculou, finalizando sua “tarefa reprodutiva”. Lentamente afastou-se cerca de 1,5 metros e se sentou no mesmo galho, recostando-se no tronco. A fêmea também ficou em uma posição mais sentada. Os dois urinaram praticamente ao mesmo tempo, a fêmea passou sua mão esquerda em sua genitália cheirou (foto abaixo olhando os dedos), e em seguida relaxaram e cochilaram como foi bem documentado no vídeo. Ficamos ali parados, mal podendo acreditar ter visto cena tão rara de se registrar.
 Mas, outra cena impressionante, assistimos; alguns  minutos depois da cópula o muriqui macho estava dormindo, como dito, quando acordou parecendo assustado e olhando à sua volta levantou e caminhou até a fêmea, movimentou-a um pouco para o lado, passou uma das mãos em sua genitália e imediatamente cheirou sua mão, olhou para os lados e voltou lentamente ao seu local e adormeceu novamente. Incrível como deu para perceber perfeitamente que ele acordou assustado com a possibilidade de outro macho ter copulado a fêmea enquanto dormia, e assim foi certificar-se “pelo odor na genitália da fêmea” que ele foi o último a copulá-la.  Infelizmente este comportamento não foi registrado, pois não esperávamos mais nenhuma cena importante após a cópula descrita.
Alguns minutos depois saímos do local, deixando os muriquis descansando a vontade, e retomamos nossas pesquisas sobre a avifauna, maravilhados com o encontro daquela manhã com o bando de muriquis e, principalmente, estupefatos, por presenciar e registrar a cópula de um casal de B.arachnoides em plena liberdade, em seu habitat natural, registro documentado que talvez seja um dos únicos feitos até hoje na natureza.








Publicação on linePDF – www.aultimaarcadenoe.com.br – maio 2011
Direitos autorais reservados: Antonio Silveira Ribeiro dos Santos
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terça-feira, 8 de maio de 2012

Biodiversidade na Mata Atlântica


A elevada biodiversidade da Mata Atlântica é função das variações ambientais neste bioma. Um dos fatores mais importantes que contribui para esta variação é sua extensão em latitude, que abrange 38º. A distribuição geográfica de lagartos na Mata Atlântica, por exemplo, é significativamente influenciada pela latitude, sendo que apenas uma única espécie apresenta ampla distribuição. Variações altitudinais constituem outro importante fator que contribui para a ocorrência de alta diversidade biológica, dado que as matas se estendem do nível do mar a uma altitude de 1.800 metros. Além disso, as matas do interior diferem consideravelmente das matas do litoral, proporcionando uma maior variedade de hábitats e nichos. Estes fatores em conjunto resultam numa diversidade única de paisagens, que abrigam extraordinária biodiversidade.
A complexidade deste bioma pode ser ilustrada pela definição e delimitação da vegetação da Mata Atlântica no Decreto Federal 750/93, que rege a utilização dos recursos naturais e o desmatamento na região: “considera-se Mata Atlântica as formações florestais e ecossistemas associados inseridos no domínio Mata Atlântica, com as respectivas delimitações estabelecidas pelo Mapa de Vegetação do Brasil, IBGE 1988: Floresta Ombrófila Densa Atlântica, Floresta Ombrófila Mista, Floresta Ombrófila Aberta, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Estacional Decidual, manguezais, restingas, campos de altitude, brejos interioranos e encraves florestais do Nordeste.”

Mais sobre as delimitações na postagem: Paisagens da Mata - Os Ecossistemas.

Apesar do intenso desmatamento e fragmentação, a Mata Atlântica, juntamente com seus ecossistemas associados (restingas e manguezais), ainda é extremamente rica em biodiversidade, abrigando uma proporção elevada das espécies brasileiras, com altos níveis de endemismo. Estima-se que existam cerca de 250 espécies de mamíferos (55 endêmicas), 340 de anfíbios (90 endêmicas), 1.023 de aves (188 endêmicas), e cerca de 20.000 espécies de árvores, metade das quais são endêmicas. Mais de dois terços das espécies de primatas também são endêmicas.

Referência: Critical Ecosystem Partnership Fund; Perfil do Ecossistema; Mata Atlântica Hotspot de Biodiversidade; Brasil; 11 de Dezembro de 2001

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Impactos das mudanças climáticas na biodiversidade da Mata Atlântica

A Mata Atlântica foi uma região submetida a eventos sequenciais de fragmentação de ambientes e consequente especiação de diferentes organismos, em parte devido a sucessivas mudanças no clima ocorridas no passado.
Muito embora a dimensão física dos efeitos das mudanças climáticas possua contorno bem definido (Crowley, 2000), o conhecimento sobre seus impactos na biodiversidade pode ser considerado insatisfatório. Há, porém, um consenso com relação ao fato de que os processos ecológicos e a distribuição, abundância e persistência de muitos organismos serão negativamente afetados (McLaughlin et al., 2002; Root & Schneider, 2006). Em nível global, respostas potenciais às mudanças climáticas têm sido examinadas, levando‐se em consideração, primordialmente, espécies e habitats específicos (e.g., Visser et al., 1998; Iverson et al., 1999).
As aves são um grupo de organismos particularmente sensíveis ao clima e, portanto, bons indicadores de alterações climáticas (Berthold et al., 2004). De acordo com Wormworth & Mollon (2006), há fortes evidências de que o aumento de 0.8°C registrado na temperatura global, no século passado, tenha impactado negativamente o comportamento, distribuição, dinâmica populacional e reprodução de algumas populações. A maioria das evidências indica que as mudanças climáticas esperadas por ocorrer até 2100 resultarão em mudanças na distribuição de espécies, declínios populacionais significativos, elevadas taxas de extinção, perturbações na relação com predadores, competidores e parasitas (Wormworth & Mollon, 2006) e no sucesso reprodutivo (Julliard et al., 2009).
As mudanças climáticas afetarão, também, a biodiversidade de forma indireta, em função, por exemplo, da elevação do nível dos oceanos e de mudanças no regime do fogo, na vegetação e no uso da terra. Em se duplicando a concentração de CO2 na atmosfera, admite‐se que as mudanças climáticas venham a ser responsáveis pela destruição de algo em torno de 35% dos habitats mundiais (Malcolm & Markham, 2000).
Via de regra, os estudos que se debruçam sobre os impactos das mudanças climáticas globais na biodiversidade apontam para três tipos de respostas básicas dos organismos: a) extinção; b) adaptação às novas condições de clima (fisiológica e/ou geneticamente); e c) deslocamento (migração) para regiões onde as condições climáticas pretéritas eventualmente prevaleçam.
A extinção de espécies ocorre pela incapacidade dos indivíduos de se adaptarem, de imediato, às mudanças do clima, que transcorrerão em um espaço de tempo relativamente curto. No segundo caso, as espécies não seriam severamente afetadas ou, ao contrário, poderiam até se beneficiar, expandindo sua área de vida, em processos de adaptação pela seleção natural de genótipos mais afeitos às novas condições climáticas. No terceiro caso, as espécies responderiam às mudanças climáticas alterando sua distribuição no espaço, acompanhando as mudanças geográficas de seus respectivos nichos ecológicos.
A conservação da diversidade de ambientes naturais e da biodiversidade associada, entretanto, vem sendo severamente afetada por atividades antrópicas variadas, cujos reflexos negativos se manifestam no crescente número de espécies da fauna e flora vulneráveis ou criticamente ameaçadas de extinção na região. Neste cenário, os impactos das mudanças climáticas aumentam as chances de extinção, particularmente de espécies com reduzida ou ausente capacidade de locomoção, associadas a espaços geográficos restritos e particulares ou incapazes de efetuar ajustamentos fisiológicos.
Avaliar os efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade, porém, não é matéria trivial, uma vez que há um grau elevado de incerteza relacionado à congruência dos modelos climáticos futuros em relação aos modelos matemáticos que tratam da distribuição potencial de espécies.
De um modo geral, modelas as modelagens matemáticas não levam em consideração uma série de variáveis ambientais, tais como barreiras geográficas naturais (como empecilho a migrações) e processos ecológicos e evolutivos complexos (e.g., competição e mutualismo). Influências não‐climáticas de caráter antropogênico, como mudanças no uso do solo, fogo, pestes e doenças, são prováveis inibidores de dispersão, tratando‐se de variáveis que os modelos matemáticos, abertamente, ainda desconsideram (Figura abaixo). Dessa forma, a determinação da intensidade dos prejuízos à biodiversidade, em função das mudanças climáticas, encontra‐se em um estágio precoce, o que significa que as perdas podem ser muito mais significativas do que se prevê, atualmente.



Biodiversidade e Unidades de Conservação na Região Metropolitana do Rio de Janeiro: Apreciação Geral das Wulnerabilidades Face às Mudanças Climáticas.
Giovaninni Luigi | COPPE/UFRJ
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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Mata Atlântica e as Mudanças Climáticas


A Mata Atlântica está tão fortemente vinculada com a história do Brasil, que até o nome do país tem como origem uma espécie arbórea endêmica desta formação, o pau-brasil (Cãsalpinea echinata Lam. - Leguminosã/Cãsalpinoideã). A exploração do pau-brasil foi o primeiro de uma série de ciclos econômicos - como o ciclo da cana-de-açúcar, o ciclo da mineração e o ciclo do café - que, ao longo de 500 anos, reduziram os 1.300.000 km2 de Mata Atlântica aos cerca de 100.000 km2 que restam hoje.
Além de representarem apenas 7% da área originalmente ocupada, os remanescentes de Mata Atlântica encontram-se altamente fragmentados e sob uma forte pressão antrópica, pois 120 milhões de brasileiros vivem na região. Considerando o conjunto de Unidades de Conservação federais, estaduais e municipais hoje existente, apenas 1% das áreas que ainda conservam a vegetação nativa está protegido.
Diversos autores (Salis et al 1995; Torres et al 1997; Scudeller 2002) têm demonstrado que a distribuição de espécies arbóreas de Mata Atlântica está diretamente correlacionada com características climáticas, especialmente a temperatura e a precipitação. No estado de São Paulo, por exemplo, nas áreas mais elevadas e, consequentemente, mais frias como Atibaia e Japi, a família Myrtaceã substitui a família Leguminosã em termos de importância. A mudança na composição florística dessas matas resulta em uma significativa alteração estrutural, as árvores são mais baixas e com caules, geralmente, de um diâmetro menor.
Mudanças climáticas afetam portanto não só o limite de biomas, mas também a distribuição de espécies dentro destes. As flutuações climáticas do Quaternário levaram a retração e expansão dos principais biomas brasileiros. Nos períodos mais frios e secos, que tiveram seu último pico a 18.000 anos atrás, a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica ficaram restritas às áreas hoje conhecidas como refúgios (Brown Jr & Ab'Saber 1979), enquanto que os Cerrados e a Caatinga se expandiram cobrindo boa parte do território nacional.
"A presença de espécies tipicamente amazônicas nas formações atlânticas do sul da Bahia e norte do Espírito Santo, por um lado, e a presença de espécies típicas da bacia dos rios Paraná e Uruguai, nas formações atlânticas da região Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) e no sul do Estado de São Paulo, por outro, sugerem que a Mata Atlântica passou por processos de expansão e retração em função, principalmente de variações climáticas" (Joly et al 1990). Recentemente, Forni-Martins & Martins (2000) apresentaram evidências citológicas sugerindo conexões entre a vegetação arbórea da Mata Atlântica e a dos Cerrados.
Indiscutivelmente o clima do planeta Terra oscilou significativamente nos últimos 65 milhões de anos. Estas flutuações incluem processos lentos (numa escala de 105 a 107 anos) de aquecimento ou de resfriamento impulsionados pela tectônica de placas, processos graduais, quase cíclicos, derivados de alterações orbitais (numa escala de 104 a 106 anos), em alguns raros casos alterações abruptas com transições na escala de 103 anos.
Este padrão de flutuações alterou-se, significativamente, desde a revolução industrial do século XIX, quando a Terra entrou em um processo de aquecimento em função do crescente acúmulo de gases, especialmente CO2, na atmosfera do planeta. Desde 1979, quando ocorreu a primeira Conferência Internacional sobre o Clima, pesquisas em todos os pontos do planeta confirmam que a Terra está num processo de aquecimento. Este processo, que vem sendo monitorado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC) desde 1988, está provocando mudanças climáticas em uma velocidade sem precedentes, a temperatura média da Terra já subiu, pelo menos 0,5º C no último século e diversos cenários sugerem que deverá subir mais 2 ou 3º C até o fim deste século.
Junto com o aumento da temperatura temos, pelo menos para a região da Mata Atlântica, a previsão de uma diminuição significativa nos índices pluviométricos. Ou seja, dentro de 100 anos a área ocupada hoje pela Mata Atlântica será mais quente e mais seca.
Conseqüências das mudanças climáticas
A pergunta que fazemos é: haverá tempo para uma redistribuição espacial das espécies de Mata Atlântica? Seremos capazes de definir hoje onde criar Unidades de Conservação e corredores migratórios, para assegurar que dentro de 100 anos as áreas ocupadas por remanescentes de Mata Atlântica estejam protegidas e conectadas? O que vai acontecer com as espécies hoje restritas às regiões mais frias, como as identificadas por Salis et al (1995) para o estado de São Paulo?
No âmbito do Programa BIOTA/FAPESP estão sendo desenvolvidas ferramentas de modelagem preditiva da distribuição de espécies (http://splink.cria.org.br). Estas ferramentas analisam as condições específicas (temperatura, precipitação, tipo de solo, tipo de formação vegetal, etc...) dos pontos onde uma determinada espécie foi observada e registrada. Com estes dados, através de algoritmos genéticos (os dois mais utilizados são o GARP e o Biocline), o sistema determina o "nicho" da espécie. Com base nesta análise o sistema projeta outros pontos onde, potencialmente, a espécie também deve ocorrer. Este tipo de modelagem permitirá também prever as conseqüências do aquecimento global na distribuição de espécies. Isto é, poderemos utilizar a previsão das novas temperaturas médias previstas nos diversos cenários para responder não só a pergunta sobre o que vai acontecer com as espécies hoje restritas às áreas mais frias, mas como as alterações nos índices pluviométricos afetarão todo o complexo de ecossistemas que hoje constituem a Mata Atlântica sensu lato.
Apesar do significativo aumento de pesquisadores(as) e projetos de pesquisa nos diversos ecossistemas que constituem este grande complexo genericamente denominado Mata Atlântica, há uma grande carência de informações em áreas básicas para o aperfeiçoamento dessas ferramentas de modelagem. Apesar de, em alguns casos, termos informações altamente sofisticadas sobre uma determinada espécie (Aidar et al 2002), para podermos prever, com maior precisão, as conseqüências das mudanças climáticas em curso seria necessário compreendermos melhor as relações entre biodiversidade e a estrutura e funcionamento dos ecossistemas.
? preciso desenvolver sistemas de monitoramento com espécies de diversos grupos taxonômicos (plantas, animais & microrganismos) para ajudar a detectar mudanças em padrões e determinar a capacidade de dispersão e/ou migração de espécies em uma paisagem já altamente fragmentada. Estas informações são de fundamental importância para determinarmos políticas que assegurem a conservação e o uso sustentável da biodiversidade tanto imediatamente como no futuro, quando o clima for mais quente e seco.
Paralelamente, é preciso gerar uma base de dados climáticos locais que possibilitem o aperfeiçoamento dos modelos de mudanças climáticas em uma escala regional. Pois os modelos hoje existentes são extrapolações grosseiras de estimativas globais que não possuem o detalhamento necessário para uma análise mais refinada.

* Carlos Alfredo Joly é biólogo, professor do Departamento de Botânica da UNICAMP (Universidade de Campinas) e Coordenador do Programa BIOTA/FAPESP.
** Artigo originalmente publicado no site Com Ciência.

domingo, 15 de abril de 2012

Restauração Florestal da Mata Atlântica




O estado atual de devastação das florestas em regiões tropicais, e as grandes áreas degradadas, demonstram a necessidade urgente de intervenções para a reestruturação da biodiversidade e suas funções ecológicas (LAMB; ERSKINE; PARROTTA, 2005). Várias paisagens de florestas tropicais já possuem baixo potencial para manter a biodiversidade, caso seus fragmentos isolados não forem reconectados de modo a renovar a possibilidade de fluxo gênico entre eles (METZGER; DÉCAMPS, 1997). A formação da Mata Atlântica no Brasil, que inclui florestas ombrófilas densas, florestas semidecíduas e matas de galeria, é um dos maiores centros mundiais da biodiversidade tropical, assim como uma das mais ameaçadas pelo desmatamento e degradação (ENGEL; PARROTA, 2001). Atualmente, sua cobertura de florestas nativas é estimada em menos de 10% de sua extensão original (FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA; INPE, 1993). Com relação às áreas protegidas, elas cobrem menos de 2% do bioma original, e as unidades de conservação de proteção integral protegem atualmente apenas 21% das florestas remanescentes (TABARELLI et al., 2005). Para os biomas onde o funcionamento ecológico foi comprometido e uma grande parte da biodiversidade nativa tornou-se seriamente ameaçada, como é o caso da Mata Atlântica, é preciso realizar uma restauração ecológica em larga escala (RODRIGUES et al., 2010). Um exemplo desta abordagem é "O Pacto de Restauração da Mata Atlântica", um ambicioso programa que visa recuperar 15 milhões de hectares da Mata Atlântica brasileira até o ano de 2050 (RODRIGUES; BRANCALION; ISERNHAGEN, 2009).A maioria dos estudos de restauração desenvolvidos contempla os modelos de composição de espécies, buscando compreender basicamente a sucessão secundária e as interações bióticas (CAMPOE, 2008), não se atendo aos aspectos de manejo silvicultural.
Conhecimentos básicos sobre a composição da floresta, na estrutura e dinâmica, são cruciais para fornecer diretrizes conceituais para a sua restauração, porém, ainda são limitados para muitas formações da Mata Atlântica (MORELLATO; HADDAD, 2000). Assim como acontece com outros sistemas altamente diversificados, a Mata Atlântica possui uma enorme diversidade funcional (relacionado com a biologia reprodutiva das espécies, herbivoria, competição e a atividade de patógenos) que é extremamente difícil de gerir ou restaurar (REIS; KAGEYAMA, 2003). Rodrigues et al. (2009) discorrem que para alcançar a aplicação em grande escala, visando restabelecer e manter a biodiversidade, a restauração ecológica deve ser apoiada pela pesquisa bem fundamentada sobre a ecologia dos diversos tipos de ecossistemas tropicais degradados, com especial ênfase no seu potencial de auto-recuperação, e suas respostas a intervenções projetadas para catalisar o processo de restauração. Assim, é importante destacar o papel fundamental da restauração ecológica para a conservação da biodiversidade, com o objetivo não só de manter a biodiversidade nativa nos fragmentos florestais remanescentes, como também de retardar a degradação florestal a que eles estão expostos (CHAZDON, 2008). Algumas dessas terras degradadas, localizadas próximas aos remanescentes florestais (fonte de propágulos e animais), podem naturalmente se recuperar e serem rapidamente revertidas para florestas secundárias, se as pressões como o fogo, e o pastoreio de gado forem reduzidos (LAMB, 1998), porém, existem outros locais mais isolados ou severamente degradados os quais exigirão alguma forma de gestão que facilite sua recuperação (LAMB; ERSKINE; PARROTTA, 2005; PARROTTA; TURNBULL; JONES, 1997). Portanto, há a necessidade de desenvolver técnicas de restauração florestal nestas regiões que sejam de baixo custo de implementação e fornecem algum nível de retorno econômico direto e a curto prazo para os agricultores e proprietários rurais (ENGEL; PARROTA, 2001). As plantações florestais podem exercer o papel de catalisadoras da regeneração natural, em que as árvores representam apenas a estrutura florestal, facilitando a colonização das comunidades de epífitas, lianas, arbustos e ervas, o que aumenta a diversidade de nichos, para a conquista da fauna (PARROTTA, 1997).
Um fator importante a ser considerado em áreas de plantios de restauração florestal é o manejo silvicultural adotado, o qual possui o objetivo de eliminar, ou minimizar, os estresses ambientais nutricionais, hídricos ou de competição, que sejam obstáculos ao desenvolvimento das árvores nos ambientes degradados, e também possibilita o efeito catalítico para reabilitação do sistema florestal (ENGEL; PARROTTA, 2003; PARROTTA; TURNBULL; JONES, 1997). Stape et al. (2006) desenvolveram estudos de restauração florestal que não só avaliam fatores como composição florística e espaçamento de plantio, mas também, o fator manejo do povoamento, onde são empregadas práticas silviculturais intensivas, de preparo de solo, fertilização e controle de plantas invasoras, visando reduzir o estresses ambientais, como uma tentativa de auxiliar no estabelecimento e desenvolvimento dos plantios, acelerando os processos ecológicos que levam à restauração de áreas degradadas.